sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Alma minha gentil, que te partiste

Camões é o maior poeta lírico do classicismo português. No seguinte soneto percebemos a sua genialidade em combinar a forma rígida do classicismo com o tema do amor platonico de um jeito comovente. Ele usa o eufemismo para se referir à morte ("Repousa lá no Céu eternamente) , a amada foi transcedentalizada no verso "Se lá no assento etéreo, onde subiste".


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta sida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou
(Camões)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ismália

Este é um poema simbolista como podemos perceber pelo subjetivismo, a descrição de Ismália faz nos sentirmos como num sonho, a personagem transporta-se para outra realidade que é o transedentalismo, além da preferência pela sugestão por exemplo: percebemos que Ismália se atirou da torre, se suicidou, mas o poeta descreve esse fato de maneira tão vaga e imprecisa que os não acostumados com poesia talvez precisem ler mais de uma vez para interpretar.


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
(Alphonsus de Guimaraens)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Adeus, meus sonhos

Álvares de Azevedo é meu poeta favorito porque sempre que eu preciso, eu leio um verso dele e sinto como se tivesse sido escrito pra mim é como se ele realmente soubesse o que está se passando, como se me entendesse.



Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto...
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus?!... morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já que não levo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!


(Álvares de Azevedo)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Soneto de fidelidade

Eu assisti à reprise do show do Roberto Carlos em Jerusalém e em uma música ele declamava um poema que é esse abaixo, já conhecia o poema mas agora estou postando no blog, o poema intercalado com a música era realmente de arrepiar.


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinicuis de Morais)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Quando falo contigo, no meu peito

Um dos meus favoritos do meu querido Álvares de Azevedo, como o poema é extenso só vou postar as quadras que eu mais gosto e pessoalmente dizem bastante sobre mim, espero que apreciem esta obra maravilhosa.

Quando falo contigo, no meu peito
Esquece-me esta dor que me consome:
Talvez corre o prazer nas fibras d’alma:
E eu ouso ainda murmurar teu nome!

Que existência, mulher! se tu souberas
A dor de coração do teu amante,
E os ais que pela noite, no silêncio,
Arquejam no seu peito delirante!
(...)
Sou um doudo talvez de assim amar-te,
De murchar minha vida no delírio...
Se nos sonhos de amor nunca tremeste,
Sonhando meu amor e meu martírio...

E não pude, febril e de joelhos,
Com a mente abrasada e consumida,
Contar-te as esperanças do meu peito
E as doces ilusões de minha vida!

Oh! quando eu te fitei, sedento e louco,
Teu olhar que meus sonhos alumia,
Eu não sei se era vida o que minh’alma
Enlevava de amor e adormecia!
(...)
Adeus! Rasgou-se a página saudosa
Que teu porvir de amor no meu fundia,
Gelou-se no meu sangue moribundo
Essa gota final de que eu vivia!

Adeus, anjo de amor! tu não mentiste!
Foi minha essa ilusão e o sonho ardente:
Sinto que morrerei... tu, dorme e sonha
No amor dos anjos, pálido inocente!

Mas um dia... se a nódoa da existência
Murchar teu cálix orvalhoso e cheio,
Flor que respirei, que amei sonhando,
Tem saudade de mim, que eu te pranteio!



(Álvares de Azevedo)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A pensativa

Esse é um trecho da poesia "A pensativa"de Almeida Freitas (1828-1892). Poeta baiano (meu conterrâneo) que fez parte junto com Álvares de Azevedo da fase do ultrarromantismo brasileiro. Almeida Freitas Viveu louco muitos anos.





"Só um olhar por compaixão te peço,
Um olhar...mas bem lânguido, bem terno...


Quero um olhar que me arrebate o siso,
Me queime o sangue, m´escureça os olhos,
Me torne delirante
!"
(Almeida Freitas)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Saudade

Este é um dos poemas que eu escrevo, não é de longe o melhor mas é o que eu estava com vontade de postar, nele usei o verso livre que não é meu favorito mas ajuda a fluir melhor o que eu sinto,espero que gostem:


"Flor que não respirei, que amei sonhando,

tem saudades de mim que eu te pranteio!"

(Álvares de Azevedo)


Mas um dia sem ti e os dias

começam a parecer séculos

e as horas, arrastando-se penosamente

zombem da minha dor.

é então que nesse momento

me entrego aos devaneios

e por um instante te vejo ao meu lado.

insânia! que tolice a minha!

então eu chego a pensar se acaso

nos teus dias ao menos um suspiro

dedicas a mim...

A saudade, concluo é o que leva-me

lentamente à loucura!

(Larissa Rocha)

domingo, 18 de dezembro de 2011

Um beijo

O autor parnasiano Olavo Bilac nos mostra neste poema uma das principais caracteristicas dessa escola literária, temos aqui um soneto decassílabo que cumpre as obrigações formais do parnasianismo. Bilac também foi eleito "príncipe dos poetas".


Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto...


(Olavo Bilac)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Soneto 17

Os dois primeiros versos desse soneto são bastante conhecidos então resolvi postar ele todo.


Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.


(William Shakespeare)


Aqui vai mais um trechinho de shakespeare que na verdade é como me sinto hoje.


"A longa distância apenas serve para unir o nosso amor.
A saudade serve para me dar
a absoluta certeza de que ficaremos para sempre unidos...
E nesse momento de saudade,
quando penso em você,
quando tudo está machucando o meu coração
e acho que não tenho mais forças para continuar;
eis que surge tua doce presença,
com o esplendor de um anjo;
e me envolvendo como uma suave brisa aconchegante...
Tudo isso acontece porque amo e penso em você... "

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Os versos que te fiz

Poetisa portuguesa,Florbela Espanca caracterizou-se pelo sentimento de sofrimento e da felicidade inalcançavel como neste poema que percebemos o amor que ainda não aconteceu,para mim,ela se caracteriza como uma romântica tardia do século XX com traços do ultra romantismo brasileiro.


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

(Florbela Espanca)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

No caminho com Maiakóvski

Este é um poema muito conhecido,principalmente a 2º estrofe que convida a uma reflexão filosófica sobre a coragem, vou postar aqui apenas um fragmento pois o poema inteiro é muito extenso mas espero que apreciem essa obra maravilhosa:



Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

(Eduardo Alves da Costa)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Amor é fogo que arde sem se ver

Clássico da literatura portuguesa, de Luiz Vaz de Camões,esse soneto foi inclusive transformado em musica pela banda Legião Urbana.



Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

(Camões)

Garota de ipanema

Esta na verdade é uma canção de Tom Jobim mas a sua letra de tão bonita que é, nao deixa de ser um poema.

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
No doce balanço, a caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor


(Tom Jobim)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cantiga sua partindo-se

Esse é um belo poema da época do trovadorismo (século XV), quando predominava o amor cortês como podemos perceber pelo tratamento com que o eu lírico se referia à amada chamando-a de "senhora".



Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes,
tão fora d'esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.


(João Ruiz de Castelo Branco)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Amor - Álvares de Azevedo

Olá,essa é a primeira postagem do blog então eu queria começar com meu poeta favorito Alvares de Azevedo:

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu'alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!


Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d'esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!


Vem, anjo, minha donzela,
Minha'alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)