domingo, 26 de fevereiro de 2012

Bocage


Manuel Maria Barbosa Du Bocage foi um poeta português símbolo do arcadismo e percursor do romantismo, particularmente acho ele incrível, eu escolhi dois poemas dele, o primeiro com caracteristicas do arcadismo, já no segundo Bocage nos apresenta ao estilo do romantismo. Os dois são sonetos à maneira camoniana.


Oh, tranças, de que Amor prisões me tece,
Oh, mãos de neve, que regeis meu fado !
Oh tesouro ! oh mistério ! oh par sagrado ,
Onde o menino alígero adormece !

Oh ledos olhos, cuja luz parece
Tênue raio de sol ! oh gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse !

Oh ! lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira !

Oh perfeições ! oh dons encantadores !
De quem sóis ?...Sois de Vênus ? - é mentira
Sois de Marília, sois de meus amores.

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Oh retrato da morte, oh Noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto !
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga !

Pois manda Amor, que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto ;
Ouve-os,como costumas,ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga :

E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos como eu, da claridade !

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.


(Bocage)

Escuta-me Amor

Escuta-me Amor, quero dizer-te umas coisas
Tem uns versinhos que preciso que leias
Uns que dizem aquilo que quero te falar
E não tenho chance...vê que desgraçada sou ?

Até o ultimo adeus me foi negado!
E tanto, tanto que já escrevi pra ti
Foste o anjo que minh ‘alma cantou
E amou muito... entre nós tudo morreu

Agora partiste sem olhar pra trás
É de teu direito me esquecer
Eu guardarei tudo de bom e esperarei
Que dê a alguém todo amor que não me deste.

(Larissa Rocha)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Despedidas (Álvares de Azevedo)

Sim, sei que Álvares de Azevedo é o poeta sobre qual eu mais falo, mas ele é meu poeta favorito e como já havia mencionado antes, ele sempre tem uma palavra pra mim quando eu preciso de uma tradução do que estou sentindo *-* Amoo esse cara!!
*Não me esqueça pois não te esquecerei :'(
Se entrares, ó meu anjo, alguma vez
Na solidão onde eu sonhava em ti,
Ah! vota uma saudade aos belos dias
Que a teus joelhos pálido vivi!

Adeus, minh’alma, adeus! eu vou chorando…
Sinto o peito doer na despedida…
Sem ti o mundo é um deserto escuro
E tu és minha vida…

Só por teus olhos eu viver podia
E por teu coração amar e crer…
Em teus braços minh’alma unir à tua
E em teu seio morrer!

Mas se o fado me afasta da ventura,
Levo no coração a tua imagem…
De noite mandarei-te os meus suspiros
No murmúrio da aragem!

Quando a noite vier saudosa e pura,
Contempla a estrela do pastor nos céus,
Quando a ela eu volver o olhar em pranto…
Verei os olhos teus!

Mas antes de partir, antes que a vida,
Se afogue numa lágrima de dor,
Consente que em teus lábios num só beijo
Eu suspire de amor!

Sonhei muito! sonhei noites ardentes
Tua boca beijar… eu o primeiro!
A ventura negou-me… mesmo até
O beijo derradeiro!

Só contigo eu podia ser ditoso,
Em teus olhos sentir os lábios meus!
Eu morro de ciúme e de saudade…
Adeus, meu anjo, adeus!
(Álvares de Azevedo)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Moonlight Sonata (Larissa Rocha)



Esta é uma coisa que sempre quis fazer,um poema em inglês. Como grande fã de musica clássica resolvi me inspirar na moonlight sonata de Beethoven que é uma musica linda.
P.S : qualquer erro de gramática consideremos licença poética ;)

Para Marcelo.
I hear the sonata and I see
His fresh face under moonlight
How lovely it is to me
Although I am out of his sight

The moon will go on above us
And that is all we can save
I don’t make any fuss
But I see, he got me like his 'lave!

I know his eyes full of sadness
Angel, why do you sigh?
Maybe you are loveless

Then come to me, we shall stay forever!
Oh yes! Let there be just you and I
And please leave me never!

(Larissa Rocha)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Júlio Dinis

Júlio Dinis é o pseudônimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, romancista português nascido na cidade do Porto em 1839. Uma de suas obras mais importantes é As pupilas do senhor reitor, quantoItálico a forma ele é considerado um escritor de transição entre o romantismo e o realismo.

Hoje, quando te vi, estavas cismando;
em que cismavas tu, virgem formosa,
desmaiadas as faces cor-de-rosa
e o seio, o gentil seio, inquieto arfando?

Em que cismavas tu? De quando
em quando elevavas ao céu, triste. saudosa,
a vista amortecida, lacrimosa,
para a baixar depois em gesto brando.

No chão jaziam murchas, desfolhadas,
as rosas, que ainda há pouco te toucavam,
agora já por ti abandonadas.

Os últimos clarões do sol douravam
as tuas belas tranças desatadas;
diz, que íntimos anelos te turbavam?

(Júlio Dinis)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Se eu morresse amanhã (Álvares de Azevedo)

Autopsicografia (Fernando Pessoa)

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
(Fernando pessoa, em cancioneiro)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A poesia

Nessas ruas desertas e melancólicas
Nas florestas iluminadas
nas campinas bucólicas
sim, eu vejo poesia.
e ela se estente
poeticamente pelos corações


ridicularmente para quem não entende.
e o que seria se não
essa poética patética um presente
da natureza para os homens
para que preencham o vazio
de suas almas.


E a poesia vem da Alma
o poema é a poesia transcrita
o poeta é um abençoado
não pela graça divina
pela Poesia...
sim amigos poetas! cantemos!


(Larissa Rocha)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Versos íntimos (Augusto dos Anjos)

Hoje vou falar um pouco do pré modernismo, no início do século XX a arte no Brasil seguia o modelo que vinha da Europa, era o momento de buscar um conhecimento mais real e profundo das condições de vida que podiam ser observadas em um país tão grande como o nosso, por isso a produção literária foi fragmentada e vários autores escreviam sobre suas diferentes regiões. É impossível tratar o pré modernismo como uma escola literária, ele é um período de transição que conserva várias tendências estéticas (parnasianismo, simbolismo). Como não existe um padrão estético para a produção literária adota-se um principio cronológico : começa em 1902 com a publicação de Os Sertões e 1922 semana de arte moderna. Os principais autores do pré modernismo são Euclides da Cunha, Graça Aranha e Augusto dos Anjos. No poema a seguir podemos perceber a métrica e rima rígidas típicas do parnasianismo.


Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


(Augusto dos Anjos)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Livros e flores (Machado de Assis)

Versinhos do dia xD
Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?


(Machado de Assis)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Não te amo (Almeida Garrett)


Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.
E eu n’alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garrett, in 'Folhas
Caídas'

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!
(Mario Quintana)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Extasis

O poeta baiano Franklin Dória nasceu em 1836 e formou-se em direito, representante do romantismo, encantado (e ofuscado) pelos grandes nomes da época, em especial Casimiro de Abreu e Junqueira Freire, publicou seus dois livros em 1874.

Quando meus olhos, solitário, prego
na cruz dos templos, na extensão dos céus,
alma atormenta-me infantil sossego;
eu penso em Deus!

quando um sorriso de esperança cheio
abre em meus lábios, e me acalma a dor,
feliz deveras na ilusão me creio;
eu penso no amor!

quando o que é belo, singular me encanta,
sinto prazeres que jamais senti;
luz-me entre graças uma imagem santa;
eu penso em ti!
(Franklin Dória)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Li um dia, não sei onde

Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado...
Diga prá mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?...
(Florbela espanca)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Eu esperei abraçando Mozart

Uma das minhas historias para o concurso literário do http://olivrodofimdomundo.com.br/ :

Nossa!
16h15min e a TV já está uma loucura! Essas emissoras são tão carniceiras, não deveria ser anti ético exibir o desespero das pessoas? Mas enfim,pensando bem já que o mundo vai acabar em uma hora eles não devem estar muito preocupados com os lucros. Mas isso me lembra...Caramba,o mundo vai acabar em uma hora!! Na verdade agora são apenas...vejamos...ah sim,50 minutos. Que azar o meu! logo agora que eu tinha acabado de me formar na faculdade,se eu soubesse que o mundo ia acabar não teria estudado engenharia aeroespacial e sim filosofia que sempre foi um dos meus hobbys favoritos,perdi o maior tempo com toda aquela mecânica e física, agora o mundo está prestes a acabar e pelo menos a filosofia teria me ajudado a reagir a isso.

Ah,ótimo,o vizinho acaba de pular da janela. Sinceramente não sei o que passa na cabeça dessas pessoas,será que elas não sabem lidar com o fim eminente? acham que saquear lojas e colocar fogo na cidade vai adiantar alguma coisa? Não! Acabou, hasta la vista,baby, game over! não é tão difícil entender,vou desligar a televisão,toda essa zona está me dando dor de cabeça.

Ali está o Mozart, em baixo da mesa coitado! Deve estar assustado com essa baderna. Mozart foi um grande amigo,lindo cão da raça boxer,desde a primeira vez que o vi ainda filhotinho foi amor à primeira vista,comprei-o logo que me mudei para o Rio de Janeiro e coloquei o nome do grande compositor,acho que isso dá a ele um ar de inteligencia. Agora reflito sobre tudo que eu construí,nunca tive uma família de verdade,não conheci meu pai e minha mãe passou a vida inteira bêbada demais pra notar minha presença na casa...meu telefone tocou,é justamente ela...não atendo,desculpe mãe mas não sinto sua falta. Na verdade Mozart é a única saudade que levo desta vida.

Quanto tempo falta? Isso me lembra que eu tenho que comprar pilhas para o relógio...ah,na verdade não preciso não, o mundo vai acabar em 20 minutos. Quer saber? só vou escolher um CD aqui...que tal "Dark side of the moon" do Pink Floyd? É,esse é bom,eu diria até épico. CD escolhido,vou ficar aqui com Mozart,desculpem mas essa cena não deixa de ser tragi-cômica, o mundo acabando lá fora e eu em baixo da mesa abraçando um cachorro. Agora só restam 5 minutos e por algum motivo as lágrimas escorrem do meu rosto,Mozart me lançou aquele olhar de cortar o coração,um olhar de despedida que me fez juntá-lo ainda mais ao meu corpo... Está tudo bem amigão,tenho certeza de que existe um céu para os cachorros...
17h15min.

Súplica (II)

Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.

O meu colo é arminho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!

Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d`astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!

Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente…
Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim eternamente! …

Vem para mim,amor…Ai não desprezes
A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!...

(Florbela Espanca)
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)