sábado, 30 de junho de 2012

Posso escrever os versos mais tristes (Pablo Neruda)

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Desejo (Gonçalves Dias)


Ah! que eu não morra sem provar, ao menos
Sequer por um instante, nesta vida
Amor igual ao meu!
Dá, Senhor Deus, que eu sobre a terra encontre
Um anjo, uma mulher, uma obra tua,
Que sinta o meu sentir;

Uma alma que me entenda, irmã da minha,
Que escute o meu silêncio, que me siga
Dos ares na amplidão!
Que em laço estreito unidas, juntas, presas,
Deixando a terra e o lodo, aos céus remontem
Num êxtase de amor!

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Eu sei e você sabe (Vinicius de Moraes)


M. A.
Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.

Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (Camões)



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Oh! páginas de vida que eu amava (Álvares de Azevedo)

Oh! Páginas da vida que eu amava,
Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado!
... Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!

E que doudo que eu fui! como eu pensava
Em mãe, amor de irmã! em sossegado
Adormecer na vida acalentado
Pelos lábios que eu tímido beijava!

Embora - é meu destino.
Em treva densa dentro do peito a existência finda
Pressinto a morte na fatal doença!

A mim a solidão da noite infinda!
Possa dormir o trovador sem crença
Perdoa minha mãe - eu te amo ainda!

Versos do dia

terça-feira, 26 de junho de 2012

Cinco sentidos, um sentimento (Guilherme Zilio)


Da mesma boca que sai a piada
Muitas vezes inoportuna
Que arranca de você a mais sincera risada,
Sai o beijo que te deixa mais apaixonada

Os mesmos olhos que medem seu corpo
Do jeito mais indiscreto
E que deixam em tom vermelho seu rosto
São os que ao encontrar com os seus,
Te trazem imediato conforto

Os ouvidos que a noite
Escutam seus sons de prazer
Maliciosos e ao mesmo tempo tão doces
São os que no outro dia,
Ouvem seu suspiro ao me ver

E as mãos espertas que deslizam sobre seu corpo
Sem nenhum pudor
E te despertam o mais profundo desejo
Nas horas tristes e amargas
Secam suas lágrimas de dor...

Não tente esconder,
Eu sinto o cheiro do seu amor.

Versos do dia

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Bom é que não esqueçais (Fernando Pessoa)

Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada
Entregai-vos ao travo doce das delicias
Que filhas são dos seus tormentos
Porém, não busqueis poder no amor
Que só quem da sua lei se sente escravo
Pode considerar-se realmente livre

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Trechos do forró


Como falta pouco para o são joão, eu resolvi postar algumas músicas de forró mais populares nessa época.



Você hoje faz questão de dizer que já me esqueceu
Fala pra todo mundo que o seu maior erro foi eu
Na verdade eu nem sei o que fiz pra você me deixar
Me desculpe chorar, mas é que sinto tanta saudade


Do seu corpo sobre a nossa cama juntinho ao meu
Das carícias , dos beijos e abraços que você me deu
Você pode até não mais voltar, mas procure entender
Que ninguem vai te amar como eu isso você vai ver


As palavras que saem de mim vêm do meu coração
São palavras sensatas, sinceras não tem uma em vão
É uma pena você me escutar e não me entender
Que ninguém vai te amar como eu isso você vai ver


Se amanhã você vier me procurar
E não me achar é porque já te esqueci
Não vá pensar que eu nunca te amei
Sabes que até chorei pra você voltar pra mim.

(Flávio José)

terça-feira, 19 de junho de 2012

Versos do dia

Morrer (Larissa Rocha)


"Coveiros, sombrios, desgrenhados,
fazei-me depressa a cova,
quero enterrar minha dor
quero enterrar-me assim nova."(Florbela Espanca)


Tenho no corpo jovem
a beleza que Afrodite me deu
mas pra quê servem encantos
se minha alma já morreu?

juventude, força, vitalidade...
para mim de nada valerão!
já que neste peito necrosado
há muito não bate um coração.

deixarei a dor da existência
suavemente...num só suspiro
pois sem ti a vida é um vazio
e eu não vivo, só respiro.

oh! e minha pobre mãe!
por me ver padecer tão nova
que desgosto ela teria, tão cedo,
em mandar cavar minha cova!
(Larissa Rocha)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Desilusão (Larissa Rocha)


M.A.
Se esta mágoa sem fim
é por tanto te amar,
tenho ainda mais odio de mim
por não saber te desprezar.

odeio os versos meus
por só cantarem teus primores
não sei te dizer adeus
embora me cause tantas dores.

 tento me convencer
de que não te adoro mais
sinto logo o peito doer
sei que não sou capaz...

do amor que não vivi
só me resta saudade
derramei só por ti
cada gota de minha mocidade.

ando a chamar-te, amor
mas teu coração não escuta
o único remédio para esta dor
é um cálice de cicuta!

(Larissa Rocha)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O poeta pede ao seu amor que lhe escreva (García Lorca)



Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.
(Federico García Lorca)

Desencanto (Manuel Bandeira)

Queridos leitores, andei meio ausente do blog mas passando rapidinho por aqui resolvi deixar um poema, do nosso ilustríssimo poeta pernambucano Manuel Bandeira, e pessoalmente me identifiquei muito com esses versos. Até a próxima :)


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre
.

sábado, 9 de junho de 2012

Essa que eu hei de amar... (Guilherme de Almeida)

Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…

E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Versos do dia


Pessoal, estou fazendo agora no blog esses posts curtos com uns versinhos, pois nem sempre dá tempo de postar algo mais elaborado e para que a gente não fique sem a poesia nossa de cada dia!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Versos do dia



Pela luz dos olhos teus (Vinicius de Moraes)



Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

domingo, 3 de junho de 2012

Súplica (Miguel Torga)

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Hoje estive pesquisando um poema para postar aqui no blog e encontrei este site : http://www.astormentas.com/ , fui na barra lateral na seção poemas e escolhi "poema ao acaso", gosto de pegar um livro de poesia e abrir numa pagina qualquer assim como algumas pessoas fazem com a bíbla. Por acaso o poema que apareceu é de um poeta que estou estudando na escola: Miguel Torga, pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, destacou-se na poesia e na prosa portuguesa, um dos representantes do presencismo (segunda geração do modernismo português). O Presencismo caracteriza-se pela emoção estética de suas obras, pelo predomínio da literatura psicológica, buscando sempre uma "literatura original, viva e espontânea".

sábado, 2 de junho de 2012

Vaidade, tudo vaidade! (António Nobre)


Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguem me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?


António Nobre é poeta português, nascido no Porto em 1867. Sua obra está incluida no ultra-romantismo e no simbolismo da geração finissecular do século XIX. Faleceu com apenas 33 anos vítima de tuberculose super romantico!.  Seus poemas influenciaram e serviram de inspiração para vários outros poetas, principalmente sua compatriota e minha queridíssima: Florbela Espanca, que escreveu o poema A Anto em homenagem a ele. Outra homenagem foi feita pelo brasileiro Manuel Bandeira no poema sugestivamente entitulado A António Nobre.


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Quadras para Ele (Larissa Rocha)

Teus olhos são como dois sóis
são ainda mais brilhantes
teu olhos carinhosos, calmos e claros
que me arrancam suspiros delirantes.

teu peito carrega divinas volúpias
mais caloroso não há no mundo inteiro
e nem mais macio, suave de linho branco
quem dera toda noite fazê-lo meu travesseiro.

teus lábios são como a primavera
onde flores e aromas se abrem a mil
quando surge ali teu lindo sorriso
um belo presente de tua boca gentil.

(Larissa Rocha)


Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)