quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Dialética (Vinicius de Moraes)

 
 
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A falta que tu fazes (Larissa Rocha)

 
 
Vê, meu amor que o tempo,
Ele passa e te rouba de mim,
Que tua ausência tem arrebentado
As cordas da minha lira,
Tudo em mim perece
Pela falta que tu fazes.
E vida já não tenho
Senão a que tenho em ti.
E morrer já não posso
A menos que seja por ti!

http://www.astormentas.com/PT/par/poemas/Larissa%20Rocha





Versos do dia


domingo, 26 de agosto de 2012

Não me deixes! (Gonçalves Dias)


Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
"Ai, não me deixes, não!

"Comigo fica ou leva-me contigo
"Dos mares à amplidão;
"Límpido ou turvo, te amarei constante;
"Mas não me deixes, não!"

E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
"Ai, não me deixes, não!"

E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
"Ai, não me deixes, não!"

Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
"Não me deixaste, não!"

sábado, 25 de agosto de 2012

Pálida à luz da lâmpada sombria (Álvares de Azevedo)

 
Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!

Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853).

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Desejo (Casimiro de Abreu)


Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!

Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;

Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;

Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;

Se a fronte pura e serena
Brilhasse dinspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;

Se a voz fosse harmoniosa
Como dharpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;

E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;

E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria...
— A vida, o céu, a razão!

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Horas de Saudade (Castro Alves)



Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu'inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.

No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minh'alma — o ninho!

Por onde trilhas — um perfume expande-se
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...

E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...


Curralinho, 2 de abril de 1870.
Publicado no livro Obras completas (1921).

sábado, 18 de agosto de 2012

A solidão do poeta (Domingos Alicata)


Sempre me comoveu a solidão dos poetas...
Caminham sobre versos, cativam amores
impossíveis, desafiam sonhos improváveis e,
sobretudo, amam...
Amam a vida, a morte, o poema sempre
inacabado, a desilusão. Principalmente as
desilusões de amor...
Em silêncio, redefinem a tristeza, secam
emotivas lágrimas, abraçam com desejo a
madrugada e, com lábios cultivados no
prazer, beijam a mulher amada até que,
por fim, morrem de tanto amar.



domingo, 12 de agosto de 2012

Gozo e dor (Almeida Garret)


Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
Não. Ai não; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor.

Dói-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida ou a razão.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Beijo (Jorge de Sena)


Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Nos braços Dele (Larissa Rocha)



É nos braços dele
Que a pele vira fogo
A respiração fica ofegante
E o coração perde o compasso.
É nos braços dele que a boca
Nos seus beijos se torna fruto
Na sua pele se torna flor
E os afetos são mais doces.
É nos braços dele
Que as estrelas são mais belas
Os aromas mais suaves
E o inverno é mais quente.
É nos braços dele que recito
Os versos mais amorosos
Só para vê-lo sorrir
E suspirar lendo Byron.
É nos braços dele que meu amor faz morada.

Versos do dia

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Despedida (Larissa Rocha)



I
Se um dia, de mim te lembrares,
Faz de conta que morri
E quando te entregares
Aos lábios de outra paixão
Lembra-te dos versos que escrevi
Que falavam desta emoção.


II
Pensa em mim como saudosa lembrança
Que tens do teu passado
Passado cheio de esperança,
De desejos vãos,
De um sonho renegado
Que morreu em minhas mãos!


III
Não passarei de lembrança vaga
Que em teu coração virou dor
Até que um velho poema traga
Recordação para teus dias
E lembra-te do sonho de amor
Que no vazio tecias.

Para conhecer mais poemas meus >> http://www.astormentas.com/PT/par/poemas/Larissa%20Rocha

Versos do dia

sábado, 4 de agosto de 2012

Ausência (Vinicius de Moraes)

Neste instante, deixo Vinicius falar por mim o que me faltam palavras para dizer...


Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Cantiga (Cecília Meireles)


Ai! A manhã primorosa
do pensamento...
Minha vida é uma pobre rosa
ao vento.

Passam arroios de cores
sobre a paisagem.
Mas tu eras a flor das flores,
imagem!

Vinde ver asas e ramos,
na luz sonora!
Ninguém sabe para onde vamos
agora.

Os jardins têm vida e morte,
noite e dia...
Quem conhecesse a sua sorte,
morria.

E é nisso que se resume
o sofrimento:
cai a flor, - e deixa o perfume
no vento!

Neste poema Cecília manifesta sensibilidade e lirismo delicado intimamente ligado a natureza (manhã, vento, flores, etc) compondo uma atmosfera de sonho. O que mais me chamou atenção na poesia acima foi a última estrofe, o perfume da flor continua existindo mesmo depois da destruição da forma que o gerou, como se fossem lembranças do passado.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)