quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia (Gregório de Matos)



Neste poema Gregório de Matos reconhece a efemridade da vida e admite um paradoxo: a instabilidade do mundo como única circunstância constante.

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria. 


 
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

 
Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

 
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Indiferença (Guilherme de Almeida)

 
Por muito tempo achei que o contrário de amor era ódio. Mas hoje entendo que vai muito além disso, o contrário do amor é indiferença!
 
Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Há quase um ano não 'screvo (Fernando Pessoa)

 
Neste poema, Pessoa apresenta o fazer poético dissociado da meditação, ele se sente incapaz de escrever porque tem a mente pesada e seus poemas já não fluem livremente.
 
Há quase um ano não screvo.
Pesada, a meditação
Torna-me alguém que não devo
Interromper na atenção.

Tenho saudades de mim,
De quando, de alma alheada,
Eu era não ser assim,
E os versos vinham de nada.

Hoje penso quanto faço,
Screvo sabendo o que digo...
Para quem desce do espaço
Este crepúsculo antigo?
 
 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Foi então que o encontro (Larissa Rocha)


 
Foi então que o encontro
Subitamente virou desentendimento
Deixou na boca o gosto amargo
De tristeza e desalento.

E o que antes eram suspiros de deleite
Hoje são soluços de saudade,
Chegou ao fim nossa ilusão...
Despertamos para dura realidade.

“Não será sempre assim”, ele dissera.
Mas com a distância entre nós
Também, pudera!

Tudo acabou como dissabor
Só não acabou ainda
Oh não, o nosso amor!
 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Amor é síntese (Mário Quitana)

 
Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...

Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.

Versos do dia


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Resíduo (Carlos Drummond de Andrade)

 
 
(...) Pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
 
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
 
(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
 

 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Canção do exílio (Gonçalves Dias)

É claro que Goncalves Dias era um romântico e sonhador, sua obra está incluída na primeira geração do romantismo, que tinha um forte carater nacionalista e acima de tudo idealista, existe inclusive um trecho do poema no hino nacional:
 
" Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores."
Contudo, achei interessante que fosse esse o poema a ser escolhido, enfim, aqui vai o poema em consideração ao dia da independência:
 
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Versos do dia


domingo, 2 de setembro de 2012

Longe de ti (Olavo Bilac)


XXXI
Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente...

Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.

sábado, 1 de setembro de 2012

Tempo marcado (Rafael Rocha)

Quando a gente se achar por essas ruas do mundo
O que irá rolar?
Serão águas deslizando de cascatas gigantescas
Ou um pequeno rio correndo para o mar?

Quando meus olhos olharem dentro de teus olhos
O que irão falar?
Dirão talvez que teus piscares e olhares
Querem me decifrar?

Quando meus dedos enlaçarem os teus dedos
Como irão se apertar?
Esquentarão palma a palma as duas mãos
Para não acenar

Aquele adeus que se apresenta sempre perto
Querendo ser distante.
Duas mãos enlaçadas fazem um sonho irreal
Tornar-se delirante.

E assim a vida marca outra vida por esse caminho
De corpo e de olhos e de mãos.
Marcando horas e minutos esperados nesse tempo
Mesmo que sejam vãos.
 
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)