domingo, 30 de dezembro de 2012

Devia morrer-se de outra maneira( José Gomes Ferreira)

 
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Apenas uma carta (Larissa Rocha)

Bahia, 27 de dezembro de 2012.
 
 
   Obrigada por todo o tempo da tua vida que tens dedicado a mim e por todo o tempo que já sonhaste em dedicar. As lembranças continuam na minha mente pois quando estamos juntos eu desejo com cada pedaço do meu coração cuidar e precisar de ti, nunca te abandonar.
   O tempo, meu amor, o tempo passa tão assustadoramente rápido, principalmente pelo futuro incerto que temos pela frente entretanto, tenho uma inocente esperança de que um dia caminharei em tua direção e nós nos abraçaremos e ficaremos assim por longos minutos, nos quais direi o quanto tu significas para mim enquanto tuas mãos gentis e leves passearão pelo contorno da minha cintura... Daria tudo para que esse momento fosse agora!
   Não há nada que eu queria mais do que essa chance, uma única de te fazer feliz e amado. Juro que não te arrependerás, deixa-me ver esse sorriso lindo todos os dias e principalmente ser a causa dele.
 
Gostaria que estivesses aqui.
 
Com amor e consideração, L. R.       
      

A meu favor (Alexandre O'Neill)

 
 
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Amostra sem valor (António Gedeão)

 
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

As lentas nuvens fazem sono (Fernando Pessoa)

 
As lentas nuvens fazem sono,
O céu azul faz bom dormir.
Bóio, num íntimo abandono,
À tona de me não sentir.

E é suave, como um correr de água,
O sentir que não sou alguém,
Não sou capaz de peso ou mágoa.
Minha alma é aquilo que não tem.

Que bom, à margem do ribeiro
Saber que é ele que vai indo...
E só em sono eu vou primeiro.
E só em sonho eu vou seguindo.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Seio de virgem (Álvares de Azevedo)

 
O que eu sonho noite e dia,
O que me dá poesia
E me torna a vida bela,
O que num brando roçar
Faz meu peito se agitar,
E o teu seio, donzela!

Oh! quem pintara o cetim
Desses limões de marfim,
Os leves cerúleos veios
Na brancura deslumbrante
E o tremido de teus seios?

Ouando os vejo, de paixão
Sinto pruridos na mão
De os apalpar e conter...
Sorriste do meu desejo?
Loucura! bastava um beijo
Para neles se morrer!

domingo, 9 de dezembro de 2012

A bela encantada (Joaquim Manuel de Macedo)

 
(...)

Se a visses... tão bela!... de branco vestida,
Coas negras madeixas no colo a ondear,
Tão só, qual princesa de um trono abatida,
Cismando ao luar...

Se a visses... tão branca, da lua ao palor
Uma harpa sonora então dedilhar,
E à margem do lago ternuras de amor
Essa harpa entornar...

Se então tu a visses... tão branca e tão bela
Com a harpa inclinada no seio ao revés,
Vertendo harmonias, com a lua sobre ela,
E o lago a seus pés...

Se a visses... não vejas, incauto mortal;
Ah! foge! ind'é tempo; não pares aqui;
Não fiques num sítio que é sítio fatal;
Se não — ai de ti!...

Não vejas a bela, que em vê-la há perigo;
Estila dos lábios amávio traidor;
Não vejas!... se a vires... — eu sei o que digo!... -
Tu morres de amor!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Eu te amo! (Larissa Rocha)


 
Ouso chamar teu nome com carinho
E pronuncio baixinho
Eu te amo!
 
A noite é testemunha silenciosa
De minha confissão medrosa
Eu te amo!
 
Sonhando em tocar teu coração
Sussurro como uma oração
Eu te amo!
 
São três palavras proibidas
Que mudariam nossas vidas
Eu te amo!
 
Sei que o mesmo não deves sentir
Por favor, perdoe-me por repetir
Eu te amo!
 
Imagino se nesse instante
Respondes-me com um distante
Eu te amo.
 
 
Mais poemas meus em >> http://www.astormentas.com/PT/par/poemas/Larissa%20Rocha

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)