sábado, 18 de janeiro de 2014

Passei a noite toda, sem dormir (Fernando Pessoa)



Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela, 
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela. 
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala, 
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança. 
Amar é pensar. 
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela. 
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela. 
Tenho uma grande distracção animada. 
Quando desejo encontrá-la 
Quase que prefiro não a encontrar, 
Para não ter que a deixar depois. 
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só Pensar nela. 
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar. 

Abandono (Larissa Rocha)



A sensação é de ter acordado de um longo sono
O corpo todo dormente, alma dolorida,
Os olhos inchados... Marcas do abandono
Na boca ainda o forte sabor da despedida!

Levanto trôpega e tateio ao meu redor
Tento em vão me acostumar com tua ausência,
Com a ideia de que poderia ser pior,
E com o fato de que estou à beira da demência.

Talvez tudo isso tenha sido um sonho confuso
Daqueles que se acorda pedindo socorro
Com um sentimento impreciso e obtuso.

Mas o sonho acabou, e minha vida foi-se também
Junto com nosso sonho antigo eu morro
Levando esse amor, desta vida para além.

Flor Bela Rocha

Tudo de mim (Larissa Rocha)



Eu tento muito fingir que não me importo
E falho ao esconder o sentimento que só cresce…
Esqueço a loucura da paixão e me comporto,
Mas chega a ser ridículo, porque a paixão transparece.
Ignoro o fato de que tudo nele é perfeito
Mas fico pendurada em cada palavra que ele diz
Tento até fingir que não notei o delicioso jeito
Que o jeans se pendura nos seus quadris

Aquele olhar quente derrete meu coração…
Torço para que ele pare de me olhar assim
Que meu coração bobo não resiste a esta tentação
É com esse olhar que ele consegue tudo de mim!

Flor Bela Rocha.

Mais poemas meus aqui

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Deixei de ouvir-te (Maria do Rosário Pedreira)



Deixei de ouvir-te. 
E sei que sou mais triste com o teu silêncio. 

Preferia pensar que só adormeceste; mas 
se encostar ao teu pulso o meu ouvido 
não escutarei senão a minha dor. 

Deus precisou de ti, bem sei. E 
não vejo como censurá-lo 

 ou perdoar-lhe.

Natimorto


Tenho pena dos meus poemas
Que morrem no primeiro verso
Eles contariam meus dilemas
Mas se perdem em outro universo

Eles morrem antes da criação
E se vão deste mundo
Quando eu perco a inspiração
Abandono o verso moribundo

Ai de mim! Que mal me roubou
O verso e a prosa?
Que minha vida sem poesia
É como espinhos sem rosa!

Mais poemas meus aqui
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)