sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O Amor, Meu Amor (Mia Couto)

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.

E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,


lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

---------------------------------------------
Mia Couto é pseudônimo de Antonio Emílio Leite Couto, nascido em Moçambique, em 1955, ele é um dos escritores mais influentes desse país e o mais traduzido também. Sua obra literária inclui poesias, contos, romances e crônicas que apresentam muitas referências da tradição e memória cultural africanas, ele possui obras que podem ser consideradas bastante regionalistas. Teve seu primeiro livro de poesia "Raiz de Orvalho" publicado em 1983, daí até então, Mia Couto tem ganhado vários prêmios (como por exemplo, o Prêmio Camões em 2013) e é aclamado em diversos países.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Amor: Uma crônica de Carlos Drummond de Andrade


Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o 1º e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O AMOR.
Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e, em troca, receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.
Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.
Se você conseguir, em pensamento, sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado…
Se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados…
Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite…
Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado… Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela…
Se você preferir fechar os olhos, antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua ida.
Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro.
Às vezes encontram e, por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio.
Por isso, preste atenção nos sinais.
Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o AMOR !!!
Ame muito…..muitíssimo…

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Saudade (Gilka Machado)


De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?


De quem é esta saudade,
de quem?


Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...


E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...


De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo

sábado, 2 de maio de 2015

Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo (Ruy Belo)


Ver-te é como ter á minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas 
estradas onde passa o sol poente 
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar 
se o tempo existe se existiu alguma vez 
e nem mesmo meço a devastação do meu passado



Longe de ti (Larissa Rocha)




Talvez tu precises de mim
E talvez eu fizesse bem pra tua vida
Quem sabe, seria só tua minha boca carmesim,
E eu seria a única pra curar tua ferida.
                                                                             
Me dói o coração estar longe de ti
E logo de ti, que eu amo tanto…
Queria que soubestes o carinho que sempre senti,
Estou muito longe, entretanto.

Há muito tempo sofro, meu amor,
Depois de tantos anos ainda não te encontrei
Mas ainda te amo com o mesmo fervor

E é por esse amor antigo que não posso abandonar
De ti, mesmo longe, eu sempre cuidei
Longe de ti…e nascida pra te amar.

Mais poemas meus clique aqui


Desconcerto (Larissa Rocha)



Tua ausência me desconcerta, de tal jeito
Que não sei se cabe mais vazio em mim,
Ando perdida, quase enlouquecida
Temendo que este seja o nosso fim.
                                       
Busco-te incessantemente, de um jeito insano
Mas o silêncio vem de todos os lados...
Mais um minuto sem ti e aqui estou
Pagando por todos os meus pecados

Já pensei em todas as formar de lidar
Com essa dor, que é saudade infinda
Mas essa agonia, só tua presença alivia...
Só o timbre confortante da tua voz linda

A saudade castiga como nunca fez antes
Neste momento, o silêncio grita
E tua falta, já me tirou quase tudo...
Só uma folha em branco espera pra ser escrita.

Mais poemas meus aqui

terça-feira, 3 de março de 2015

Eu queria tanto (Paulo Leminski)



eu queria tanto
ser um poeta maldito 
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito 

eu queria tanto 
ser um poeta social 
rosto queimado 
pelo hálito das multidões 

em vez 
olha eu aqui 
pondo sal 
nesta sopa rala 
que mal vai dar para dois


segunda-feira, 2 de março de 2015

domingo, 1 de março de 2015

Amor bastante (Paulo Leminski)



quando eu vi você 
tive uma idéia brilhante 
foi como se eu olhasse 
de dentro de um diamante 
e meu olho ganhasse 
mil faces num só instante 

basta um instante 
e você tem amor bastante

-----------------------------------------------------
Paulo Leminski Filho foi um dos mais importantes escritores brasileiros. Nascido em Curitiba (1944) ele foi poeta, romancista e tradutor. Em 1964, publica seus primeiros poemas na revista Invenção, editada por poetas concretistas, daí a influência na forma dos seus poemas. Da estética concretista, também vemos uma síntese entre linguagem coloquial e o vigor da forma, Leminski não abandona as rimas, que são essenciais para a estrutura rítmica dos seus poemas, como é possível perceber no poema acima. Outros elementos presentes em sua poesia são a eliminação de pontuação e uso exclusivo de letras minúsculas.

Referências:
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2851/paulo-leminski> acessado em 01 mar 2015.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Sou um evadido (Fernando Pessoa)



Sou um evadido.
Logo que nasci 
Fecharam-me em mim, 
Ah, mas eu fugi. 

 Se a gente se cansa 
Do mesmo lugar, 
Do mesmo ser 
Por que não se cansar? 

 Minha alma procura-me 
Mas eu ando a monte, 
Oxalá que ela 
Nunca me encontre. 

 Ser um é cadeia, 
Ser eu é não ser. 
Viverei fugindo 
Mas vivo a valer.

----------------------------------
Este poema, Pessoa faz uma reflexão filosófica: só é possível viver plenamente se libertando da carcaça do "eu". isso quer dizer que o ser nada mais é que uma prisão, e estar preso a esse ser imutável é o que impede o poeta de encontrar a verdadeira liberdade ("Do mesmo ser/ Por que não se cansar?").

Além disso, ele afirma "Ser um é cadeia,/ Ser eu é não ser", esse é seu argumento para buscar uma fuga dos limites do "eu", e nota-se que para ele, a própria tentativa de fugir de si mesmo já é sua grande conquista "Viverei fugindo/ Mas vivo a valer".

Refletindo sobre o que o poema nos tenta dizer, vemos que realmente nascemos dentro de cascas onde ficamos aprisionados, contentes com nossa zona de conforto, entretanto, ninguém é imutável, nossas experiências vão nos somando e nos fazendo ver as mesmas coisas sob perspectivas diferentes, sendo assim, a melhor saída para aproveitar completamente o que a vida nos oferece é quebrar as grades da cadeia do "ser" e estar sempre em movimento, para estar enfim, livre de si. 



sábado, 10 de janeiro de 2015

Entrega (Larissa Rocha)




Para V.

No teu abraço forte e quente
Se dissipam todos os meus medos,
Minhas lágrimas se fazem segredo
Eu poderia viver assim eternamente...

Fora do teu laço, sou menina,
Que triste e desamparada, chora
As perdas e mágoas de outrora,
Mas nos teus braços minha dor termina.

E como encontrei teu abraço,
O melhor de toda minha vida!
Agora me vejo aqui rendida
Ao amor que achei no teu regaço

(Larissa Rocha)

Para mais poemas de minha autoria clique aqui



Ballerina (Larissa Rocha)

Olá pessoal! 2015 finalmente chegou no blog, gostaria de desejar um ótimo ano para todos e dizer que não abandonei o blog não, as postagens estão menos frequentes por causa da faculdade que tem tomado uma grande parte do meu tempo.
O primeiro poema do ano é um poema meu em homenagem a todas as bailarinas, e em geral, a maravilhosa arte de dançar! 



"Voar sempre, cansa - 
por isso ela corre 
em passo de dança" 
(Eugénia Tabosa)

Ela é um anjo na ponta dos pés
Ela é um anjo, de asas fortes e elegantes,
Com movimentos belos e graciosos
Em cima do palco, ela tem olhos brilhantes.

Ela é um anjo que pode dançar
Tem o poder de encantar toda a gente
Com seus saltos e piruetas, está quase a voar
E nada nunca a fez tão contente!

O vídeo a seguir é uma performance da minha bailarina preferida, Svetlana zakharova, vale a pena conferir: 


Para mais poemas meus clique aqui


"Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez!"
(Friedrich Nietzsche) 



Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)